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MídiaNo mercado, ganha força a tese de a Selic seguir na casa dos 14%
PIB forte, inflação resistente e novos riscos para os preços alimentam a percepção de que a taxa básica pode permanecer próxima dos níveis atuais por bastante tempo.
Ainda que o ponto-médio das projeções dos economistas de mercado indique uma Selic de 13,25% no fim deste ano, há uma ala crescente no mercado que aponta para a possibilidade de o Copom se ver obrigado a manter a taxa de juros na casa dos 14%.
Isso representaria um ciclo de flexibilização monetária bastante tímido, sobretudo ao se avaliar o nível dos juros nominais. No entanto, o temor de uma desancoragem adicional das expectativas de inflação e a piora recente na dinâmica do real, apesar de algum alívio no petróleo, alimentam a sensação no mercado de que o caminho para a política monetária no que resta de 2026 não passa por juros muito mais baixos.
E, nos últimos dias, dados de atividade e inflação reforçaram essa sensação. A abertura do IPCA-15 de maio e a força da demanda doméstica na leitura do primeiro trimestre do Produto Interno Bruto (PIB) impediram que os juros de curto prazo acompanhassem a melhora externa com a queda do petróleo. Não por acaso, a curva de juros encerrou a precificando uma Selic de 14% no fim deste ano.
A tese de espaço reduzido para cortes de juros já havia sido expressada pela JGP na entrevista de Eduardo Cotrim ao Intraday há algumas semanas. O mercado, agora, parece convergir para o discurso mais “hawkish” adotado pela gestora carioca. E até mesmo o discurso desta semana do diretor de política monetária do BC, Nilton David, ajudou na percepção de que há uma maior preocupação na diretoria da autoridade monetária com a dinâmica inflacionária.
Ao observar a recente dinâmica do mercado de juros — e a descorrelação entre os preços do petróleo e as taxas futuras desde quarta-feira —, o estrategista Daniel Cunha, do Santander, acredita que parece estar em curso “uma lenta percepção de que, mesmo antes do choque do petróleo, os mercados já vinham precificando de forma inadequada o regime macroeconômico atual: um ambiente que está se mostrando significativamente mais inflacionário do que se imaginava anteriormente”.
Cunha observa que, além dos preços do petróleo, o fluxo de dados econômicos tem desenhado um cenário bastante forte. “No Brasil, os dados continuam sem sugerir que a atual postura monetária seja tão contracionista a ponto de garantir o retorno da inflação à meta no horizonte relevante para o Banco Central. Apesar da narrativa simplista de que ‘os juros reais já estão altos demais’, o país caminha para um quinto ano consecutivo de inflação acima da meta, enquanto os núcleos e os componentes não comercializáveis seguem, para dizer o mínimo, pouco animadores.”
Os números mais recentes, de fato, não foram muito animadores. No IPCA-15, a média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada da inflação de serviços subjacentes — medida muito acompanhada pelos participantes do mercado — acelerou de 5,98% em abril para 6,15% em maio. Nas mesmas métricas, a média dos núcleos também acelerou, ao subir de 5,06% para 5,11%.
E, na atividade econômica, não foram poucas as casas que revisaram para cima os números do PIB deste ano, ao começarem a embutir nas contas o impacto positivo que deve ser gerado pelo “pacotão” de medidas anunciado pelo governo. Com a maioria delas sendo via crédito, o canal da política monetária fica, a cada dia, um pouco mais obstruído.
“Entendo perfeitamente a tentação natural de buscar assimetria e aplicar em juros nos níveis atuais [apostar na queda das taxas]. O posicionamento técnico está mais limpo, os preços parecem cada vez mais atraentes e o ruído macroeconômico pode facilmente criar a impressão de que o pior já foi precificado. Ainda assim, continuo cético de que esse momento realmente tenha chegado”, afirma Cunha.
O gestor de renda fixa Daniel Costa, da família de fundos Janeiro da Itaú Asset Management, diz ver chance de o BC cortar os juros em junho, mas acredita que a possibilidade de uma interrupção do ciclo de flexibilização monetária “é muito maior do que o mercado acredita”.
“É verdade que, se a guerra se resolver rapidamente, abre espaço para que o ciclo continue, mas, na nossa leitura, é preciso uma melhora substancial para que isso fique claro nas próximas reuniões. Se não ficar, é bem possível que o BC venha a parar o ciclo de cortes de juros”, alertou o profissional ao participar da “live” mensal da gestora no início da semana.
Costa, nesse sentido, disse ver valor em posições de “flattening” (achatamento) da curva de juros, ao “tomar” (apostar na alta) as taxas mais curtas e “dar” (apostar na queda) as mais longas. “Acho que o mercado tem muita confiança de que o BC tem dificuldade de parar um ciclo de cortes na aproximação de eleição e eu discordo muito disso. Acho que o BC vai fazer o que for certo fazer”, enfatizou o gestor, ao apontar que, caso a autoridade monetária faça algo errado, a moeda sofreria impactos, o que poderia ser mais danoso para o ciclo eleitoral.
“Vale a pena para o BC esperar este momento para, se tudo se concretizar, voltar a cortar os juros de forma mais intensa”, disse Costa.
Ao longo da semana, importantes players do mercado também começaram a enfatizar os riscos em torno de um menor espaço para redução da taxa de juros.
Foi o caso do Bank of America, para quem o resultado do PIB do primeiro trimestre “deveria deixar o Copom mais cauteloso, e não mais confortável”. “Um PIB mais forte reduz o espaço para um ciclo rápido de afrouxamento monetário, mas a composição do crescimento não é particularmente tranquilizadora”, observa o chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do BofA, David Beker, ao notar que o consumo segue sendo sustentado pelo impulso fiscal e pela expansão do crédito, enquanto a indústria continua dependente do setor extrativo.
“Somando-se a isso o alerta do BC de que as tensões no Oriente Médio podem tanto elevar a inflação quanto reduzir o crescimento, a implicação parece clara: trata-se de um dado forte na manchete, mas que aponta para uma função de reação mais rígida da autoridade monetária, e não para uma visão mais otimista sobre a tendência de crescimento da economia brasileira”, enfatiza Beker.
Em linha semelhante, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, tem alertado que os riscos de alta para sua projeção de Selic a 13,5% no fim do ano “são relevantes”. Na semana, o profissional elevou suas projeções de inflação de 5,0% para 5,2% neste ano e de 3,9% para 4,0% em 2027.
Secemski alerta que a redução da jornada de trabalho no Brasil também deve elevar as pressões inflacionárias no curto prazo, caso o projeto seja aprovado no Senado. “Isso adicionaria pressão justamente sobre um dos segmentos do IPCA que continua a ser o ‘calcanhar de Aquiles’ do BC, em um ambiente de mercado de trabalho apertado, potencialmente levando a revisões para cima das projeções de inflação e, no limite, a um ciclo de afrouxamento monetário mais limitado.”
Ele nota, ainda, que as pressões sobre os preços de alimentos podem persistir por mais tempo diante de uma possível escassez de fertilizantes e pelos impactos do El Niño, se somando à pressão nos preços de combustíveis, que seguem significativamente abaixo das cotações internacionais.